Federalização do Caso do Cabula, Já!

No caso da chacina do Cabula, ocorrida em dia 6 de fevereiro de 2015 (leiam as Primeiras Denuncias publicadas por Fernando Conceição, no dia 7 de fevereiro de 2015), existe

Um Imperativo Democrático de Justiça!

O Ministério Público da Bahia denunciou uma execução sumária das 12 vítimas e pediu a prisão preventiva dos 9 policias, autores dos 144 disparos entre os quais 88 atingiram seus alvos. O Ministério Público ainda afirmou: “Todos os laudos cadavéricos indicam — todos — que aconteceu  uma execução. As vítimas estavam em plano inferior a seus agressores. Ou de joelho, ou deitadas”.

E por incrível que pareça, vale lembrar que aquela chacina foi uma mera operação de vingança, dirigida por um subtenente de policia mau-caráter, assim como retrata o artigo do Correio da Bahia: Chacina com 12 mortos no Cabula foi planejada por PMs como vingança.

Apesar das denuncias do Ministério Público e sem ouvir nenhuma testemunha, a Justiça baiana pronunciou uma sentença de absolvição de 10 policiais, um dos quais nem constava na ação. Nota que o MP também investigou a situação das vítimas e comprovou que nenhuma tinha antecedentes criminais, apesar das declarações falaciosas do Governador da Bahia da época. Vejam as declarações do promotor de Justiça Davi Gallo a respeito, no quarto minuto do vídeo: A justiça será feita.

Sobre esta sentença relâmpago absurda, leiam o jornal que primeiro a revelou: Sentença-relâmpago na Bahia absolve policiais por mortes do Cabula assim como o texto de Lena Azevedo, jornalista: Chacina do Cabula: o som ensurdecedor da ancestralidade.

Segundo o próprio Ministério Público, a sentença relâmpago da Tribunal de Justiça da Bahia “atropela todas as regras processuais”. “A Juíza  cometeu a maior insanidade do mundo: desprezar o o artigo 415 do Código Penal e julgar apenas com o Código de Processo Civil”.

Ainda segundo o Ministério Público, “o crime cometido pelos policiais é contra a humanidade“, e por isso merece correr pela Justiça Federal. Após ser solicitado pela REAJA, Organização Política e a Associação Justiça Global, o Procurador Geral da República, Rodrigo Janot considerou haver incongruência e curiosidades no caso do Cabula.

Em  consequência, Rodrigo Janot, Procurador Geral da República, pediu o deslocamento de competência para apuração dos fatos pelo Supremo Tribunal de Justiça.

Vejam mais detalhes no artigo do Correio da Bahia: Justiça absolve PMs envolvidos na morte de 12 pessoas no Cabula

Com isto, e pela primeira vez na história do Brasil, um caso extraordinário de impunidade policial em caso de execução sumárias de jovens negros assim como de violações dos direitos das vítimas pelas instituições de justiça do estado da Bahia pode vir a ser investigado!

Pelo respeito a vida, vamos lutar e fortalecer a campanha iniciada e impulsionada pela REAJA, Organização Política para exigir que  o Incidente de Deslocamento de Competência seja admitido pelo Supremo Tribunal de Justiça.

                                               Federalização do Caso do Cabula,  Já!

                                                             Fim da impunidade, Já!

Quem leio até aqui e quiser começar a fortalecer a campanha, pode:

Vejam também alguns clipes de quem apoia a federalização: Fernando Conceição, Dexter, Sandra Carvalho, eu (Paul Regnier) e muitos outros na página da REAJA !!!

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Perdido, Sem Sono, em Salvador!

Quem sou eu? Os meus amigXs? Quem são elXs?
Sou “branco” e gosto de muitas culturas negras.

Amadou Hampaté Ba? Li sua obra, inteira, quando eu era adolescente;
Dancei com 15 ou 16 aos sons dos Djembês, Sabar, GwoCa e outros tambores. Porque?
Vivo em Salvador, cidade túmulo e linda, cheia de flores, dança e lixos.

Tenho amigXs, quem são? De muitas culturas.

Quem sou eu? Empatia.
Será que posso ser empata de mim mesmo?
Não levarei nada! Deixarei apenas um rastro.
Quem lembrará de mim. Quanto tempo?
O que serei além da minha própria vida?
dos meus atos, dos meus amigos?

Os meus filhos. Lindos. Quem são eles?
Ainda livre de escolher ser outros?

Somos os nossos atos? Ou não?
Somos os atos dos outros? Dos nossos amigos?
Dos nossos inimigos? Quem nós define?

Quero acreditar que tenho amizades.
Mas até quando? Até qual limite?
O que é um amigo? Transformação.
Atos transformam. Quem conhece, confia.
Será que alguém se conhece.

Já tentei tanto ser solidário. Quero tentar ainda. Sempre.
Já briguei tanto. Pretendo ser radical reformista.
Não existem herois… Apenas circonstâncias.
Me dizem generoso.

Tento ser humano. Acreditar em valores universais.
Tortura nunca mais. A vida se repeita, sempre.
Fronteiras são instrumentos de dominação. Abrogação!
Não existe estrangeiro. Apenas diferenças.

Não gosto de chaves, nem de carros. Mas tenho.
Gosto de ser livre, de poder viajar. Tenho passaporte europeu.
E os meus amigos? O que que eles tem?
Cérebros.

Detesto comportamentos racistas, machistas, dominadores… E o que sou?

Um servidor público federal, bem remunerado, cheio de privilégios.
Contradições.

Tem alguns dias que não bebo, nem fumo. Só tomo café. De manhã.
Tento ser humano, cérebro consciente, ouvindo Habib Koité, Sona Jobarteh,…

Eu quis ser GCAP, FICA, N’zinga, não deu.
Quero acreditar que sou Senzala, de Santos.

Sou Afirme-se? Mais do que Reaja? Será?
Alguns amigos fogem de mim. Outros me procurem.
Estamos se separando. Estou sendo procurado?

Meus filhos vão me ter como pai, sempre.

Não consigo ficar calado. Boca de Solapa.
Pretendo dizer o justo. Que arrogância.
Será que existe o justo?

Bandido é bom. Morto não fale.
Aprender a ouvir. O silêncio da morte.

Mãe Runho

No café da Consciência Negra do terreiro Jeje do Bogum, domingo passado 20 de novembro de 2016, no Engenho Velho da Federação, depois do lindo recital solo de Matheus Aleluia, fui pego de surpresa ao ser chamado para receber o certificado Mãe Runho, entregue por Alex, ogã suspenso.

certificadomaerunhoMuito honrado, fiquei.

 

Salve Exu Lebabimibome! Diabo ou Deus?

Salve Hildebrando Almeiada Cerqueira. Salve Maria Doralice Sousa, alias Dona Dora. Salve todos os ancestrais.

Talvez não por acaso, a tese de doutorado de Hildebrando Almeida Cerqueira, aprovado com a  menção “très honorable” pela Universidade Paris Descartes (Paris V) ainda não está disponível na página  ad-hoc.  Disse o autor que já estará em breve. Tomara. Tomara também que a tradução venha logo para o português, pois o seu conteúdo merece certamente a maior divulgação. Ainda não li. Mas escutei o autor, ontem, e me deliciei ao aprender tantas coisas, ao ritmo de uma voz tranquila e humilde.

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Merece o salão nobre de qualquer Universidade. Merece ser estudada nas quebradas. Merece ser divulgada nos presídios. Merece ser publicada pela ONU e espalhada pelas encruzilhadas daqui e alhures.

A desconstrução do colonialismo, a conscientização dos indivíduos sobre suas próprias limitações, a valorização do respeito mútuo (e não da tolerância), a nossa emancipação individual e coletiva da nossa própria cultura. Parecem metas utópicas!

Descolonizar nossas mentes, herdeiras de culturas milenares dominadoras, esta é uma tarefa árdua. Venho tentando há muitos anos me emancipar da minha cultura europeia racista, sexista e dominadora. Perceber que meu corpo quase nunca é rejeitado. Não é fácil. Peço desculpas sinceras pela minha arrogância. Sou branco. E apesar de considerar a empatia como uma das qualidades mais valiosa de um ser humano, não pretendo ter conseguido me emancipar de milenares de ancestralidade judeo-cristão. Apenas tento. Sempre.

Obrigado Espaço Cultural D’Venetta! Por existir e nós proporcionar um pouco deste respeito que precisamos tanto resgatar. Obrigado por nós proporcionar mais um tempo de humanidade, de humildade, no meio deste “maelström” tecnológico acelerado no qual vivemos.

Exu Lebabimibome.

O mensageiro. Adotado pelos europeus como divindade africana mais aparentada ao diabo. Tem mais a ver com o Cristo, ou com o Macaco. Vive nas encruzilhadas. Causa transformações, guerras e pazes, ao criticar a ordem estabelecida.

Metáfora (tal como me imprimiu quando contada)- Dois homens olhem um terceiro passar. Depois de longe, o primeiro comenta:  “Que chapéu vermelho lindo!”. O segunda protesta: “Aquele homem? Tinha chapéu vermelho? Que nada. O chapéu era branco, e lindo, de fato.” O primeiro retruca, já esquentando: “Você ficou maluco? Aquele chapéu era vermelho. Boto a minha no fogo!” O segundo gritando: “Quem tá doido é você! Branco neve, aquele chapéu!”. Depois de um tempo, os dois já estão próximo de se matar um outro quando decidem ir atrás daquele homem. Encontrado, ele vire a cabeça de um lado: chapéu branco. Vira do outro lado: chapéu vermelho. Os dois homens se olhem, e se abraçam…

Três anos atrás, um homem, conhecido como incarnação de Exu na Bahia, me apresentou a Campanha Reaja. Espero que este homem pare de ser crucificado. Pois a fala de um menino, criado na favela, hoje jornalista, professor e “doutor”, incomoda. A crítica perturba e destabiliza a Acadêmia, simplesmente dominada pelo eurocentrismo desde que se criou. Hildebrando bem nós lembrou. “Divide et impera” era um dos princípios políticos de “Julius Caesar”. Não foi por nada. O colonizador/conquistador/dominador tem este poder de escolher, não somente a vida ou a morte dos (neo-) escravizados, mas também suas sexualidades, suas religiões,  seus lazeres, suas drogas. Tolerar tais práticas culturais e (tentar) acabar com outras. Salve a Capoeira. Angola e Regional. Por mais que sejam contraditórias.

Salve Andreia Beatriz dos Santos. Salve Hamilton Borges Onirê e todos os membros da Reaja, vivos e mortos. Salve Exu. Salve Ainá, Omin e Vitória. Salve Ademir. Salve todos.

Salve todos que lutam, muitas vezes ao perigo de suas vidas, em pró das diversidades culturais, da emancipação e do respeito a vida, e contra a colonização das nossas mentes pela civilização imperialista, capitalista, euro e tecno-centrada. Agradeço pela paciência. O império cientifico capitalista está omnipresente. E raros são aqueles que persistem em resistir.

E vejam. Nem a Reaja nem qualquer outra organização política ou cultural, resistindo contra a hegemonia capitalista da civilização judeo-cristão devem ser assuntos de tolerância! Pois não se trata de tolerar ninguém, de cima para baixo. Bem pelo contrário. Há quem escolhe tolerar, isso ou aquilo. John Locke bem introduziu a tolerância como uma política a ser exercitada pelo Rei (a república). Só se tolera o que se pode (tentar) aniilar. Não queremos Rei.

Respeito! De olho para o olho, de mentes abertas e solidárias entre povos e religiões.

Respeito! De igual para igual!

Respeito.

E, enquanto não tiver respeito, fecha a cara!

Finalizando, não posso esquecer de expressar os meus sinceros e respeitosos agradecimentos a comunidade docente do Instituto de Matemática da UFBA por ter protocolado recentemente ao CONSUNI uma propositura de homenagem de Andreia Beatriz de Santos, liderança da Organização Política Reaja. Segue texto de motivação encaminhado. Nestes tempos de cegueira política, qualquer ato de resistência se torna um ato singular de coragem.

“[…] It is from these comrades in the struggle that I learned the meaning of courage. Time and again, I have seen men and women risk and give their lives for an idea. I have seen men stand up to attacks and torture without breaking, showing a strength and resiliency that defies the imagination. I learned that courage was not the absence of fear, but the triumph over it. I felt fear myself more times than I can remember, but I hid it behind a mask of boldness. The brave man is not he who does not feel afraid, but he who conquers that fear. […]”

Nelson Mandela. Long Walk to Freedom, an autobiography, most of it written in jail.

Beyoncé o fez, coincidência?

Queria ser poeta, para derramar tuas lágrimas!

Ter talento o suficiente para convencer Carlinhos Brown, João Carlos Salles, Gilberto Gil e todos os astres da hora de vestir a camisa da Reaja! Convencer esta “gente de poder” a usar e abusar dos holofotes, assim com Beyoncé acabou de fazer. Queria poder convencer tod@s que o racismo mata negr@s, que o genocídio do povo negro está acontecendo…

Mas, além de ser homem e branco, sou francês. O que não facilita o exercício da cidadania por este lado do mar. Mas vamos lá, com nossa gota d’água, sem mais demora nem poesia.

Não derramei lágrimas ontem ao participar, único representante docente da UFBA, do ato de memória à Chacina do Cabula promovido pela Campanha Reaja. Não chorei, ao ver as mães presentes, fortes de não sei que coragem enraizado em uma tradição plurissecular de resistência e luta, chorar. Não foi meu filho que morreu.

Não derramei lágrimas quando Peu Meurray contou, no palco do Ghetto Square, sexta-feira passada, como a mãe dele era orgulhoso deste menino que conseguia tirar som de qualquer lata. Talvez por isso foi convidado a participar do Festival Nalata. Não porque fez doutorado como bem queria.

Mas choro. Todo dia, interiormente, por isso e aquilo. Este é o preço a pagar pela empatia.

Choro e sofro principalmente ao pensar nos mortos injustiçado, e em algumas coincidências, que se forem fortuitas, então preciso parar de pensar!

  • Coincidência os maus-tratos e humilhações cotidianos das famílias da Vila Moisés e Engomadeira?
  • Coincidência as ameaças aos militantes da Campanha Reaja e aos moradores das vizinhança da Chacina?
  • Coincidência as contradições explicitas entre o inquérito do Ministério Público, órgão formalmente independente do poder político, e este da Policia Civil, sob comando do Governador?
  • Coincidência, a decisão de uma juíza substituta (tirando as férias do juiz oficialmente responsável) que declara INOCENTES os 9 PMs inculpados, após ter analisado, em alguns dias apenas, mais de 1000 páginas de um processo com conteúdo suficiente para derrubar um Rui Costa e seu secretário de Segurança Pública, Maurício Barbosa em qualquer democracia que se respeita?

Queridos leitores, ficar calado é ser cúmplice. Não basta ser lúcido. Precisamos agir e exigir a:

                           IMEDIATA FEDERALIZAÇÃO DA CHACINA DO CABULA

Junto com a Campanha Reaja, Justiça Global, a OAB-BA e várias outras instituições, organizações, entidades, movimentos populares e pessoas, podemos SIM impedir o esquecimento da Chacina do Cabula, triste exemplo da ESCANDALOSA IMPUNIDADE da Policia Militar.

A ONU e a OEA (Organização dos Estados Americanos) estão acompanhado este caso, já tão famoso pelas declarações insanas do Governador da Bahia.

Teve que se retratar publicamente “ele”, depois de ter declarado que todos os mortos tinham passagem na policia.
Só 2 tinham e ainda, por embriaguez no carnaval.

Mas não pediu desculpas, O Rui Costa, pelas falas absurdas e irresponsáveis que fez na mídia, comparando a arte de “fazer gol” com esta de “matar gente”! Que desgraça!

E por incrível que parece, segundo este mesmo governador, matar cachorro justifica a expulsão dos profissionais responsáveis!

Governador, o que justificaria lhe expulsar do poder, junto com os responsáveis das inúmeras chacinas cotidianas do povo negro?

Enquanto isso, os noves PMs inculpados pelo Ministério Público estão soltos para matar. O que fazem, com uma excelência acadêmica sinistre. Só estes últimos dias, as vésperas do ato de memória do aniversário de um ano da chacina do Cabula, foram  5 mortos na Engomadeira e nas imediações da Vila Moisés.

Coincidência?

 

III Marcha Internacional Contra o Genocídio do Povo Negro – Comunicado Nacional e Internacional

Das Lutas

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III Marcha Internacional Contra o Genocídio do Povo Negro

Comunicado Nacional e Internacional

Em agosto de 2015 teremos a III Marcha Internacional Contra o Genocídio do Povo Negro. A Marcha Internacional Contra o Genocídio do Povo Negro não é uma ação que começa e se encerra num evento, numa data predeterminada. Trata-se de um conjunto de ações permanentes e articuladas que ocorrem o ano inteiro, através de enfrentamentos, debates, ações, articulações, serviços comunitários e construção de espaços de solidariedade em vilas, favelas e prisão.

A Marcha Contra o Genocídio do Povo Negro organizada pela Campanha Reaja desde sua primeira edição e cujo processo de construção e organização, há dez anos, é uma marcha autônoma em relação a governos e partidos, não aceita em suas fileiras bandeiras, panfletagem ou propaganda que não seja compatível com a construção de uma organização internacional de luta Panafricanista, Quilombista, Negro-Comunitária.

Nossa Marcha não é Periférica…

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Esta causa não é minha?

Em dezembro de 2014, caminhando pelo bairro dos Barris, um “amigo”, muito íntimo por sinal, me perguntou: “Espero que a França seja melhor do que aqui!”. Fiquei constrangido e curioso em saber de qual “melhor” se tratava. Após algumas tentativas minhas de adivinhação, este meu “amigo” me revelou seu pensamento: “Espero que na França tenha menos pobres do que aqui…”. “Olhe, não é bem simples assim” respondi.

No início deste mês de julho de 2015, fui a Porto Alegre participar de um evento cientifico da minha área de atuação profissional, o Fórum Internacional de Software Livre FISL-2015. Ao trilhar os passeios da PUC-RS e cruzar pelas avenidas do centro da cidade, lembrei da pergunta do meu “amigo” e pensei em mim mesmo: “Onde estão os pobres do Rio Grande do Sul? Pois aqui me parece que estou na Europa, ou numa das suas réplicas sul-americanas!”

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Uma bela praça de Porto Alegre

De fato, naquela capital deste estado, vi mendigos nas ruas, sofrendo do frio em abrigos precários. Também soube de uma bairro na periferia, distante de 16km do centro. Restinga. Me disseram que neste bairros e outras periferias, a população é mais pobre, para não dizer negra. Mas, no centro da cidade, me senti como no centro de Paris, minha cidade natal. Centro cosmopolita, cheio de uma diversidade étnica no meio de uma maioria branca. E com uns poucos pobres nas beiradas dos passeios e de baixo de pontes. Curti muitas superfícies de concreto embelezadas por artes urbanas das mais variadas. Usufrui de um sistema de transporte decente e eficiente, apesar de caro. Dava tranquilo para fingir ser mais um brasileiro no meio de tantos outros. Em fim, me senti parisiense…

Nunca tive a coragem de ir para alguns dos países francofones da África do Oeste (Mauritânia, Senegal, Mali ou Guiné) onde tudo me levava. Dança, Cultura, Amizades… Nem para visitar, muito menos para viver. Pois sempre pensei que no espaços urbanos destes países, nunca teria como deixar de ser um “gringo”, francês, herdeiro de uma família burguês e cidadão de uma estado colonial até hoje, co-responsável por explorações, guerras e genocídios no continente Africano e no Mundo. Por isso, nunca consegui comprar uma passagem de avião para Dakar, Bamako ou qualquer outra capital desta região do Mandingo. E não é por falta de interesse pelas culturas e tradições destas regiões. Pois, danças, músicas e tradições oral do Mandingo me acompanham e me fortalecem desde minha prima adolescência. É que eu sabia que a cicatriz colonial escravocrata nunca me permitiria o “anonimato” nas ruas de Ziguinchor ou de Mopti, Nunca poderia andar nos espaços públicos, me sentindo um cidadão qualquer no meio de outros.

Por estes e outros motivos, arrisquei vir morar em Salvador-BA, há mais de uma década já. E realmente, andando pelas ruas de Salvador, consigo me iludir. Acreditar que não sou mais aquele “gringo”. Apesar de saber que estou continua e positivamente discriminado, principalmente pela PM e as elites que dominam esta cidade. Sou agradecido, todos os dias, pelo acolhimento que recebi e recebo no Brasil, tanto na academia quanto nas favelas. Sou muito bem tratado. Demais.

Obvio que em alguns lugares, nos quais acabo andando por um misto de amizade, teimosia, arrogância inconsciente, sei que minha branquitude me torna alvo de interesses financeiros. Que posso sim ser “assaltado”. Que seja. Isto é o preço a pagar por ter escolhido morar no Brasil. Inclusive, eu também andava em lugares considerados “perigosos” na França. Mas não foi em nenhuma “cité” nem favela, mas sim dentro do campus da USP em 1993, que sofri a agressão a mão armada a mais violente e perigosa da minha vida, por parte de policias a paisana! Provavelmente porque naquele dia, andávamos discutindo com minha namorada, negra.

Voltando a este meu amigo e aos mendigos daqui e dali. Horas depois daquela pergunta, ele voltou a me procurar sobre este assunto e eu disse: “os povos economicamente pobres da França nem todos estão na França. Na sua grande maioria, estão no Vietnã (ex-Indochina), em Madagascar, na Argélia, no Senegal, no Mali, na Guiné, etc.” Isto se chama globalização e histerese da história causada pela ausência de políticas mundiais de Reparação.

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Quem disse que o Brasil “colonia! acabou?

Concluindo.

Esta minha visita à Porto alegre me fez perceber com mais acurácia que as regiões ao sul do triângulo SP-Rio-Brasilia são para as regiões nortes do Brasil e as grandes favelas das periferias urbanas o que a África é para a Europa: o lugar de cerceamento das tradições populares e das populações mais pobres e descriminadas da nossa época. Parece milagre que, apesar do genocídio continuo do povo negro pelos braços armados do Estado desde mais de quatro centos anos, seja destas comunidades, famílias e povos que possa se fortalecer e se espalhar um modelo alternativo de organização da sociedade mais justo, solidário e respeitoso das vidas humanas e das diversidades culturais.

Sim, esta causa é minha.

Reaja!

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Convergindo Tod@s para Salvador, 22 de agosto de 2015

Pelo direito de tod@s a viver suas adolescencias!

Nos países envelhecendo da Europa e de outros lados, a adolescência vem se alongando regularmente! Hoje, considera-se facilmente que o jovem adulto que ainda não casou, permanece na casa dos pães e não tem renda própria ainda é uma adolescente. Isto vale até mesmo a idade fatídica de 33 anos! Não sou defensor de tal extremo, mas é de se se considerar que o alongamento da esperança de vida dos seres humanos e o aumento regular da complexidade da sociedade humana provoca o alongamento do período educativo das crianças.

Por isso e mais algumas razões expostas em https://18razoes.wordpress.com/quem-somos/.  sou radicalmente a favor do atraso da maioridade penal e cidadã a 21 anos!

Ou, pelo menos pela sua manutenção a 18 anos!

Por uma sociedade verdadeiramente educadora! Nenhum passo atrás!

Drogas ilegais? Gosto tanto quanto das legais!

Não resisto a tentação de convidar a tod@s para ler o excelente artigo 10 razões para legalizar as drogas publicado no “Le Monde Diplomatique” por John Greeve, comandante, membro da Unidade de Inteligência Criminal de Scotland Yard

_1114782_john_grieve2_pa_150Gente, quando será que os comandantes das forças de segurança pública no Brasil adotarão um verdadeiro discurso pedagógico sobre tais questões fundamentais? Será que teremos de esperar a alternância politica e a volta das forças de “esquerda” para oposição/rua?

Servidor do Rei!

Depois de 10 dias em greve remunerada, estou ficando doente.
Doente de estar em luta e receber meu salário. Pois, na minha compreensão,
existe um paradoxe intrínseco a greve remunerada.
A greve é um instrumento justo, legítimo e legal contra a dominação do Rei

-o governo eleito pelo povo numa democracia- e dos notáveis.
Mas como posso estar em greve contra o Rei e ao mesmo tempo,
receber subsídios do Rei para a minha manutenção,
e consequentemente, para a manutenção da greve?

Greves remuneradas são férias forçadas para a maioria dos servidores.
Para poucos radicais, inclusive eu, greve ainda é um instrumento de luta.
Mas a remuneração da greve pelo Rei a torna inócua.

Um diretor de unidade amigo meu bem me disse.
“Com greves remuneradas, quero estar em greve a vida toda”.
Durante a greve, a pós-graduação, a pesquisa, a extensão não param,
nem as viagens à Chapada, em Imbassaí ou ao exterior.
Também não param as tardes no Shopping Salvador…

De fato, por que ensinar? Por que corrigir provas? É tão bom estar em greve remunerada.

E por que são remuneradas, estas greves dos servidores públicos, no Brasil?
Por que é isto que se faz no Mundo? Não.
Pois o Brasil é um dos únicos países no qual funcionários têm este privilégio.
Para só citar o meu país de origem, tão citados por pesquisadores da academia brasileira,
o governo francês não dá este privilégio aos seus servidores. Receber sem trabalhar.
Nem o Reino Unido, nem os Estados-Unidos. Mas era de se esperar de democracias velhas e tão opressoras dos trabalhadores.

O Brasil então é exemplar. Permite que o servidor público receba sem trabalhar.

Basta estar em “greve legal”! Infelizmente, não. Isto não é bem um direito conquistado pelos trabalhadores de alta luta.

Inclusive, trabalhadores não funcionários não recebem salários durante suas greves.
Fazem o que todo qualquer grevista está acostumando a fazer.
Fundos de solidariedade, atraso nos seus pagamentos e no fim da greve, -quando já não foram demitidos- negociam com os patrões, a pauta da greve e a reposição salarial.

E nós servidores, o que fazemos no fim da greve?
Nada. Voltamos a trabalhar. Professores, às vezes, repõem aulas. Menos mal.

Por isso e aquilo, tenho vergonha de estar em greve.
E prometo, farei o mesmo encaminhamento em todas as assembleias.
“Solicitamos que o Rei corte os nossos salários desde o primeiro dia da greve!”
Ao fim da greve, que certamente acontecerá com mais rapidez desde que este encaminhamento seja aprovado, negociaremos reposições de salários, de aulas, de pesquisas, de extensões, por mais que seja preciso.

Só assim poderei me sentir feliz de estar em greve.
Adquirindo a convicção que não sou o palhaço de uma minoria de extremistas e de uma maioria de omissos.
Sabendo que não sou mais um servidor feliz de gozar dos seus privilégios, não dados pelo povo, mas sim pelo Rei.

Pois é privilégio “receber sem trabalhar”.
Privilégio digno dos cargos de notáveis distribuídos alguns anos atrás pelo Imperador do Brasil.
Vamos enxergar, meu povo, nossos privilégios por mais que isto doa no bolso!