Mãe Runho

No café da Consciência Negra do terreiro Jeje do Bogum, domingo passado 20 de novembro de 2016, no Engenho Velho da Federação, depois do lindo recital solo de Matheus Aleluia, fui pego de surpresa ao ser chamado para receber o certificado Mãe Runho, entregue por Alex, ogã suspenso.

certificadomaerunhoMuito honrado, fiquei.

 

Salve Exu Lebabimibome! Diabo ou Deus?

Salve Hildebrando Almeiada Cerqueira. Salve Maria Doralice Sousa, alias Dona Dora. Salve todos os ancestrais.

Talvez não por acaso, a tese de doutorado de Hidebrando Almeida Cerqueira, aprovado com a  menção “très honorable” pela Universidade Paris Descartes (Paris V) ainda não está disponível na página  ad-hoc.  Disse o autor que já estará em breve. Tomara. Tomara também que a tradução venha logo para o português, pois o seu conteúdo merece certamente a maior divulgação. Ainda não li. Mas escutei o autor, ontem, e me deliciei ao aprender tantas coisas, ao ritmo de uma voz tranquila e humilde.

hildebrandodvenetta

Merece o salão nobre de qualquer Universidade. Merece ser estudada nas quebradas. Merece ser divulgada nos presídios. Merece ser publicada pela ONU e espalhada pelas encruzilhadas daqui e alhures.

A desconstrução do colonialismo, a conscientização dos indivíduos sobre suas próprias limitações, a valorização do respeito mútuo (e não da tolerância), a nossa emancipação individual e coletiva da nossa própria cultura. Parecem metas utópicas!

Descolonizar nossas mentes, herdeiras de culturas milenares dominadoras, esta é uma tarefa árdua. Venho tentando há muitos anos me emancipar da minha cultura europeia racista, sexista e dominadora. Perceber que meu corpo quase nunca é rejeitado. Não é fácil. Peço desculpas sinceras pela minha arrogância. Sou branco. E apesar de considerar a empatia como uma das qualidades mais valiosa de um ser humano, não pretendo ter conseguido me emancipar de milenares de ancestralidade judeo-cristão. Apenas tento. Sempre.

Obrigado Espaço Cultural D’Venetta! Por existir e nós proporcionar um pouco deste respeito que precisamos tanto resgatar. Obrigado por nós proporcionar mais um tempo de humanidade, de humildade, no meio deste “maelström” tecnológico acelerado no qual vivemos.

Exu Lebabimibome.

O mensageiro. Adotado pelos europeus como divindade africana mais aparentada ao diabo. Tem mais a ver com o Cristo, ou com o Macaco. Vive nas encruzilhadas. Causa transformações, guerras e pazes, ao criticar a ordem estabelecida.

Metáfora (tal como me imprimiu quando contada)- Dois homens olhem um terceiro passar. Depois de longe, o primeiro comenta:  “Que chapéu vermelho lindo!”. O segunda protesta: “Aquele homem? Tinha chapéu vermelho? Que nada. O chapéu era branco, e lindo, de fato.” O primeiro retruca, já esquentando: “Você ficou maluco? Aquele chapéu era vermelho. Boto a minha no fogo!” O segundo gritando: “Quem tá doido é você! Branco neve, aquele chapéu!”. Depois de um tempo, os dois já estão próximo de se matar um outro quando decidem ir atrás daquele homem. Encontrado, ele vire a cabeça de um lado: chapéu branco. Vira do outro lado: chapéu vermelho. Os dois homens se olhem, e se abraçam…

Três anos atrás, um homem, conhecido como incarnação de Exu na Bahia, me apresentou a Campanha Reaja. Espero que este homem pare de ser crucificado. Pois a fala de um menino, criado na favela, hoje jornalista, professor e “doutor”, incomoda. A crítica perturba e destabiliza a Acadêmia, simplesmente dominada pelo eurocentrismo desde que se criou. Hildebrando bem nós lembrou. “Divide et impera” era um dos princípios políticos de “Julius Caesar”. Não foi por nada. O colonizador/conquistador/dominador tem este poder de escolher, não somente a vida ou a morte dos (neo-) escravizados, mas também suas sexualidades, suas religiões,  seus lazeres, suas drogas. Tolerar tais práticas culturais e (tentar) acabar com outras. Salve a Capoeira. Angola e Regional. Por mais que sejam contraditórias.

Salve Andreia Beatriz dos Santos. Salve Hamilton Borges Onirê e todos os membros da Reaja, vivos e mortos. Salve Exu. Salve Ainá, Omin e Vitória. Salve Ademir. Salve todos.

Salve todos que lutam, muitas vezes ao perigo de suas vidas, em pró das diversidades culturais, da emancipação e do respeito a vida, e contra a colonização das nossas mentes pela civilização imperialista, capitalista, euro e tecno-centrada. Agradeço pela paciência. O império cientifico capitalista está omnipresente. E raros são aqueles que persistem em resistir.

E vejam. Nem a Reaja nem qualquer outra organização política ou cultural, resistindo contra a hegemonia capitalista da civilização judeo-cristão devem ser assuntos de tolerância! Pois não se trata de tolerar ninguém, de cima para baixo. Bem pelo contrário. Há quem escolhe tolerar, isso ou aquilo. John Locke bem introduziu a tolerância como uma política a ser exercitada pelo Rei (a república). Só se tolera o que se pode (tentar) aniilar. Não queremos Rei.

Respeito! De olho para o olho, de mentes abertas e solidárias entre povos e religiões.

Respeito! De igual para igual!

Respeito.

E, enquanto não tiver respeito, fecha a cara!

Finalizando, não posso esquecer de expressar os meus sinceros e respeitosos agradecimentos a comunidade docente do Instituto de Matemática da UFBA por ter protocolado recentemente ao CONSUNI uma propositura de homenagem de Andreia Beatriz de Santos, liderança da Organização Política Reaja. Segue texto de motivação encaminhado. Nestes tempos de cegueira política, qualquer ato de resistência se torna um ato singular de coragem.

“[…] It is from these comrades in the struggle that I learned the meaning of courage. Time and again, I have seen men and women risk and give their lives for an idea. I have seen men stand up to attacks and torture without breaking, showing a strength and resiliency that defies the imagination. I learned that courage was not the absence of fear, but the triumph over it. I felt fear myself more times than I can remember, but I hid it behind a mask of boldness. The brave man is not he who does not feel afraid, but he who conquers that fear. […]”

Nelson Mandela. Long Walk to Freedom, an autobiography, most of it written in jail.

Beyoncé o fez, coincidência?

Queria ser poeta, para derramar tuas lágrimas!

Ter talento o suficiente para convencer Carlinhos Brown, João Carlos Salles, Gilberto Gil e todos os astres da hora de vestir a camisa da Reaja! Convencer esta “gente de poder” a usar e abusar dos holofotes, assim com Beyoncé acabou de fazer. Queria poder convencer tod@s que o racismo mata negr@s, que o genocídio do povo negro está acontecendo…

Mas, além de ser homem e branco, sou francês. O que não facilita o exercício da cidadania por este lado do mar. Mas vamos lá, com nossa gota d’água, sem mais demora nem poesia.

Não derramei lágrimas ontem ao participar, único representante docente da UFBA, do ato de memória à Chacina do Cabula promovido pela Campanha Reaja. Não chorei, ao ver as mães presentes, fortes de não sei que coragem enraizado em uma tradição plurissecular de resistência e luta, chorar. Não foi meu filho que morreu.

Não derramei lágrimas quando Peu Meurray contou, no palco do Ghetto Square, sexta-feira passada, como a mãe dele era orgulhoso deste menino que conseguia tirar som de qualquer lata. Talvez por isso foi convidado a participar do Festival Nalata. Não porque fez doutorado como bem queria.

Mas choro. Todo dia, interiormente, por isso e aquilo. Este é o preço a pagar pela empatia.

Choro e sofro principalmente ao pensar nos mortos injustiçado, e em algumas coincidências, que se forem fortuitas, então preciso parar de pensar!

  • Coincidência os maus-tratos e humilhações cotidianos das famílias da Vila Moisés e Engomadeira?
  • Coincidência as ameaças aos militantes da Campanha Reaja e aos moradores das vizinhança da Chacina?
  • Coincidência as contradições explicitas entre o inquérito do Ministério Público, órgão formalmente independente do poder político, e este da Policia Civil, sob comando do Governador?
  • Coincidência, a decisão de uma juíza substituta (tirando as férias do juiz oficialmente responsável) que declara INOCENTES os 9 PMs inculpados, após ter analisado, em alguns dias apenas, mais de 1000 páginas de um processo com conteúdo suficiente para derrubar um Rui Costa e seu secretário de Segurança Pública, Maurício Barbosa em qualquer democracia que se respeita?

Queridos leitores, ficar calado é ser cúmplice. Não basta ser lúcido. Precisamos agir e exigir a:

                           IMEDIATA FEDERALIZAÇÃO DA CHACINA DO CABULA

Junto com a Campanha Reaja, Justiça Global, a OAB-BA e várias outras instituições, organizações, entidades, movimentos populares e pessoas, podemos SIM impedir o esquecimento da Chacina do Cabula, triste exemplo da ESCANDALOSA IMPUNIDADE da Policia Militar.

A ONU e a OEA (Organização dos Estados Americanos) estão acompanhado este caso, já tão famoso pelas declarações insanas do Governador da Bahia.

Teve que se retratar publicamente “ele”, depois de ter declarado que todos os mortos tinham passagem na policia.
Só 2 tinham e ainda, por embriaguez no carnaval.

Mas não pediu desculpas, O Rui Costa, pelas falas absurdas e irresponsáveis que fez na mídia, comparando a arte de “fazer gol” com esta de “matar gente”! Que desgraça!

E por incrível que parece, segundo este mesmo governador, matar cachorro justifica a expulsão dos profissionais responsáveis!

Governador, o que justificaria lhe expulsar do poder, junto com os responsáveis das inúmeras chacinas cotidianas do povo negro?

Enquanto isso, os noves PMs inculpados pelo Ministério Público estão soltos para matar. O que fazem, com uma excelência acadêmica sinistre. Só estes últimos dias, as vésperas do ato de memória do aniversário de um ano da chacina do Cabula, foram  5 mortos na Engomadeira e nas imediações da Vila Moisés.

Coincidência?

 

III Marcha Internacional Contra o Genocídio do Povo Negro – Comunicado Nacional e Internacional

Das Lutas

11695027_1007225722633878_5028079848912363182_n

III Marcha Internacional Contra o Genocídio do Povo Negro

Comunicado Nacional e Internacional

Em agosto de 2015 teremos a III Marcha Internacional Contra o Genocídio do Povo Negro. A Marcha Internacional Contra o Genocídio do Povo Negro não é uma ação que começa e se encerra num evento, numa data predeterminada. Trata-se de um conjunto de ações permanentes e articuladas que ocorrem o ano inteiro, através de enfrentamentos, debates, ações, articulações, serviços comunitários e construção de espaços de solidariedade em vilas, favelas e prisão.

A Marcha Contra o Genocídio do Povo Negro organizada pela Campanha Reaja desde sua primeira edição e cujo processo de construção e organização, há dez anos, é uma marcha autônoma em relação a governos e partidos, não aceita em suas fileiras bandeiras, panfletagem ou propaganda que não seja compatível com a construção de uma organização internacional de luta Panafricanista, Quilombista, Negro-Comunitária.

Nossa Marcha não é Periférica…

Ver o post original 1.593 mais palavras

Esta causa não é minha?

Em dezembro de 2014, caminhando pelo bairro dos Barris, um “amigo”, muito íntimo por sinal, me perguntou: “Espero que a França seja melhor do que aqui!”. Fiquei constrangido e curioso em saber de qual “melhor” se tratava. Após algumas tentativas minhas de adivinhação, este meu “amigo” me revelou seu pensamento: “Espero que na França tenha menos pobres do que aqui…”. “Olhe, não é bem simples assim” respondi.

No início deste mês de julho de 2015, fui a Porto Alegre participar de um evento cientifico da minha área de atuação profissional, o Fórum Internacional de Software Livre FISL-2015. Ao trilhar os passeios da PUC-RS e cruzar pelas avenidas do centro da cidade, lembrei da pergunta do meu “amigo” e pensei em mim mesmo: “Onde estão os pobres do Rio Grande do Sul? Pois aqui me parece que estou na Europa, ou numa das suas réplicas sul-americanas!”

mendingo

Uma bela praça de Porto Alegre

De fato, naquela capital deste estado, vi mendigos nas ruas, sofrendo do frio em abrigos precários. Também soube de uma bairro na periferia, distante de 16km do centro. Restinga. Me disseram que neste bairros e outras periferias, a população é mais pobre, para não dizer negra. Mas, no centro da cidade, me senti como no centro de Paris, minha cidade natal. Centro cosmopolita, cheio de uma diversidade étnica no meio de uma maioria branca. E com uns poucos pobres nas beiradas dos passeios e de baixo de pontes. Curti muitas superfícies de concreto embelezadas por artes urbanas das mais variadas. Usufrui de um sistema de transporte decente e eficiente, apesar de caro. Dava tranquilo para fingir ser mais um brasileiro no meio de tantos outros. Em fim, me senti parisiense…

Nunca tive a coragem de ir para alguns dos países francofones da África do Oeste (Mauritânia, Senegal, Mali ou Guiné) onde tudo me levava. Dança, Cultura, Amizades… Nem para visitar, muito menos para viver. Pois sempre pensei que no espaços urbanos destes países, nunca teria como deixar de ser um “gringo”, francês, herdeiro de uma família burguês e cidadão de uma estado colonial até hoje, co-responsável por explorações, guerras e genocídios no continente Africano e no Mundo. Por isso, nunca consegui comprar uma passagem de avião para Dakar, Bamako ou qualquer outra capital desta região do Mandingo. E não é por falta de interesse pelas culturas e tradições destas regiões. Pois, danças, músicas e tradições oral do Mandingo me acompanham e me fortalecem desde minha prima adolescência. É que eu sabia que a cicatriz colonial escravocrata nunca me permitiria o “anonimato” nas ruas de Ziguinchor ou de Mopti, Nunca poderia andar nos espaços públicos, me sentindo um cidadão qualquer no meio de outros.

Por estes e outros motivos, arrisquei vir morar em Salvador-BA, há mais de uma década já. E realmente, andando pelas ruas de Salvador, consigo me iludir. Acreditar que não sou mais aquele “gringo”. Apesar de saber que estou continua e positivamente discriminado, principalmente pela PM e as elites que dominam esta cidade. Sou agradecido, todos os dias, pelo acolhimento que recebi e recebo no Brasil, tanto na academia quanto nas favelas. Sou muito bem tratado. Demais.

Obvio que em alguns lugares, nos quais acabo andando por um misto de amizade, teimosia, arrogância inconsciente, sei que minha branquitude me torna alvo de interesses financeiros. Que posso sim ser “assaltado”. Que seja. Isto é o preço a pagar por ter escolhido morar no Brasil. Inclusive, eu também andava em lugares considerados “perigosos” na França. Mas não foi em nenhuma “cité” nem favela, mas sim dentro do campus da USP em 1993, que sofri a agressão a mão armada a mais violente e perigosa da minha vida, por parte de policias a paisana! Provavelmente porque naquele dia, andávamos discutindo com minha namorada, negra.

Voltando a este meu amigo e aos mendigos daqui e dali. Horas depois daquela pergunta, ele voltou a me procurar sobre este assunto e eu disse: “os povos economicamente pobres da França nem todos estão na França. Na sua grande maioria, estão no Vietnã (ex-Indochina), em Madagascar, na Argélia, no Senegal, no Mali, na Guiné, etc.” Isto se chama globalização e histerese da história causada pela ausência de políticas mundiais de Reparação.

prodColon

Quem disse que o Brasil “colonia! acabou?

Concluindo.

Esta minha visita à Porto alegre me fez perceber com mais acurácia que as regiões ao sul do triângulo SP-Rio-Brasilia são para as regiões nortes do Brasil e as grandes favelas das periferias urbanas o que a África é para a Europa: o lugar de cerceamento das tradições populares e das populações mais pobres e descriminadas da nossa época. Parece milagre que, apesar do genocídio continuo do povo negro pelos braços armados do Estado desde mais de quatro centos anos, seja destas comunidades, famílias e povos que possa se fortalecer e se espalhar um modelo alternativo de organização da sociedade mais justo, solidário e respeitoso das vidas humanas e das diversidades culturais.

Sim, esta causa é minha.

Reaja!

reajaBanner-page001

Convergindo Tod@s para Salvador, 22 de agosto de 2015

Pelo direito de tod@s a viver suas adolescencias!

Nos países envelhecendo da Europa e de outros lados, a adolescência vem se alongando regularmente! Hoje, considera-se facilmente que o jovem adulto que ainda não casou, permanece na casa dos pães e não tem renda própria ainda é uma adolescente. Isto vale até mesmo a idade fatídica de 33 anos! Não sou defensor de tal extremo, mas é de se se considerar que o alongamento da esperança de vida dos seres humanos e o aumento regular da complexidade da sociedade humana provoca o alongamento do período educativo das crianças.

Por isso e mais algumas razões expostas em https://18razoes.wordpress.com/quem-somos/.  sou radicalmente a favor do atraso da maioridade penal e cidadã a 21 anos!

Ou, pelo menos pela sua manutenção a 18 anos!

Por uma sociedade verdadeiramente educadora! Nenhum passo atrás!

Drogas ilegais? Gosto tanto quanto das legais!

Não resisto a tentação de convidar a tod@s para ler o excelente artigo 10 razões para legalizar as drogas publicado no “Le Monde Diplomatique” por John Greeve, comandante, membro da Unidade de Inteligência Criminal de Scotland Yard

_1114782_john_grieve2_pa_150Gente, quando será que os comandantes das forças de segurança pública no Brasil adotarão um verdadeiro discurso pedagógico sobre tais questões fundamentais? Será que teremos de esperar a alternância politica e a volta das forças de “esquerda” para oposição/rua?

Servidor do Rei!

Depois de 10 dias em greve remunerada, estou ficando doente.
Doente de estar em luta e receber meu salário. Pois, na minha compreensão,
existe um paradoxe intrínseco a greve remunerada.
A greve é um instrumento justo, legítimo e legal contra a dominação do Rei

-o governo eleito pelo povo numa democracia- e dos notáveis.
Mas como posso estar em greve contra o Rei e ao mesmo tempo,
receber subsídios do Rei para a minha manutenção,
e consequentemente, para a manutenção da greve?

Greves remuneradas são férias forçadas para a maioria dos servidores.
Para poucos radicais, inclusive eu, greve ainda é um instrumento de luta.
Mas a remuneração da greve pelo Rei a torna inócua.

Um diretor de unidade amigo meu bem me disse.
“Com greves remuneradas, quero estar em greve a vida toda”.
Durante a greve, a pós-graduação, a pesquisa, a extensão não param,
nem as viagens à Chapada, em Imbassaí ou ao exterior.
Também não param as tardes no Shopping Salvador…

De fato, por que ensinar? Por que corrigir provas? É tão bom estar em greve remunerada.

E por que são remuneradas, estas greves dos servidores públicos, no Brasil?
Por que é isto que se faz no Mundo? Não.
Pois o Brasil é um dos únicos países no qual funcionários têm este privilégio.
Para só citar o meu país de origem, tão citados por pesquisadores da academia brasileira,
o governo francês não dá este privilégio aos seus servidores. Receber sem trabalhar.
Nem o Reino Unido, nem os Estados-Unidos. Mas era de se esperar de democracias velhas e tão opressoras dos trabalhadores.

O Brasil então é exemplar. Permite que o servidor público receba sem trabalhar.

Basta estar em “greve legal”! Infelizmente, não. Isto não é bem um direito conquistado pelos trabalhadores de alta luta.

Inclusive, trabalhadores não funcionários não recebem salários durante suas greves.
Fazem o que todo qualquer grevista está acostumando a fazer.
Fundos de solidariedade, atraso nos seus pagamentos e no fim da greve, -quando já não foram demitidos- negociam com os patrões, a pauta da greve e a reposição salarial.

E nós servidores, o que fazemos no fim da greve?
Nada. Voltamos a trabalhar. Professores, às vezes, repõem aulas. Menos mal.

Por isso e aquilo, tenho vergonha de estar em greve.
E prometo, farei o mesmo encaminhamento em todas as assembleias.
“Solicitamos que o Rei corte os nossos salários desde o primeiro dia da greve!”
Ao fim da greve, que certamente acontecerá com mais rapidez desde que este encaminhamento seja aprovado, negociaremos reposições de salários, de aulas, de pesquisas, de extensões, por mais que seja preciso.

Só assim poderei me sentir feliz de estar em greve.
Adquirindo a convicção que não sou o palhaço de uma minoria de extremistas e de uma maioria de omissos.
Sabendo que não sou mais um servidor feliz de gozar dos seus privilégios, não dados pelo povo, mas sim pelo Rei.

Pois é privilégio “receber sem trabalhar”.
Privilégio digno dos cargos de notáveis distribuídos alguns anos atrás pelo Imperador do Brasil.
Vamos enxergar, meu povo, nossos privilégios por mais que isto doa no bolso!

e se sobrar apenas um, serei eu!

Não fazer NADA, é ser cúmplice!

Quando o próprio Ministério Público da Bahia denuncia execuções sumárias,
temos que exigir o julgamento imediato dos responsáveis!

Heróis não existem. Necessidades sim, ai de nós!

Não pretendo esperar que um filho, meu ou seu, seja morto porque foi comprar uma pizza, encontrar a namorada ou simplesmente fumar um cigaro de marijuana, para me sentir responsável pelo genocídio que está acontecendo todos os dias do ano nesta terra da Bahia e do Brasil.

Sei que outros sofrem e morrem em outros lugares. Mas no momento, estou aqui, e minha família também.

Portanto, é aqui que tenho que AGIR! Para proteger a minha família Negra!

Não sendo poeta, pego emprestado aqui umas letras do ilustre Victor Hugo e recomendo a tod@s, a leitura do poema completo em francês ou em inglês:


J’accepte l’âpre exil, n’eût-il ni fin ni terme,
Sans chercher à savoir et sans considérer
Si quelqu’un a plié qu’on aurait cru plus ferme,
Et si plusieurs s’en vont qui devraient demeurer.

Si l’on n’est plus que mille, eh bien, j’en suis ! Si même
Ils ne sont plus que cent, je brave encor Sylla ;
S’il en demeure dix, je serai le dixième ;
Et s’il n’en reste qu’un, je serai celui-là !

“Crise de Segurança Pública”: um sinônimo para “Genocídio do Povo Negro”!

A democracia brasileira está em perigo! A crise acirrada de “Segurança Pública”  denunciada por Atila Roque, diretor da Anistia Internacional atinge principalmente as populações jovens e mais frágeis do Brasil, aquelas historicamente marginalizadas economicamente pelo processo de colonização escravocrata europeu das Américas. Assim como explica Ricardo Cappi:

O discurso sobre o jovem hoje é pautado numa visão amedrontada e amedrontadora. Se temos uma população amedrontada, esta sempre irá preferir candidatos que demonstrem ter a mão forte e o punho duro. Então o medo é rentável politicamente.” em ‘O medo é politicamente rentável’

E se o jovem é perigoso, então ele pode ser abatido, como aconteceu recentemente na chacina da Vila Moisés em Salvador.

Ainda segundo Cappi: “Não há um alarme em relação aos 50 mil, 60 mil mortos que temos anualmente no Brasil. Em duas décadas isso dá mais de um milhão de mortos, o que é superior a qualquer conflito armado contemporâneo.

E quando se junta a estes dados os fatos que a maioria dos homicídios são cometidos pela policia militar e atinge jovens negros, caracteriza-se então de forma explicita o acontecimento de um prática de exterminação de uma parte da população brasileira, por critérios étnicos, culturais, sociais, ou seja pela sua raça. Durante o processo de Nuremberg em 1944, tal prática recebeu o sinistre nome de genocida.

Não que genocídios não ocorreram antes na história. O trafego negreiro, o genocídio dos Armenianos, a exterminação dos Hererós e Namaquas no início do século são apenas alguns dos exemplos mais conhecidos de genocídios. Mas só receberam esta nomeação depois de 1944, quando o conceito de genocídio veio às luzes do Tribunal Internacional de Nuremberg. Pois se tratava então do massacre de Judeus Brancos por não judeus, brancos também…

Em fim. Veio para ficar e percebeu-se que as formas de genocídio foram muitas no decorrer da história da humanidade, e que ainda cria-se novas formas, assim como podemos observar no República Federal do Brasil, que constituí certamente o maior apartheid pós-colonial da nossa época.

Na sua fala, em Washington DC (EU) no mês de fevereiro 2015 em frente a Comissão Internacional de Direitos Humanos (CIDH) da Organização dos Estados Americanos (OEA), o representante da Campanha Reaja denuncia com firmeza e compromisso tais acontecimentos. Vale a pena ganhar 7 minutos assistindo a fala de Hamilton Borges Onirê, pois aqueles que ainda ignoram ou negam a existência da Crise de Segurança Pública, ou seja, do Genocídio do Povo Negro no Brasil precisam acordar. Urgentemente!