Arquivo mensal: maio 2013

Violência Institucional na FACOM: uma retrospectiva oportuna

Ao conversar com um amigo professor hoje, comentei a eleição do próximo diretor na FACOM e apelei para o seu apoio ao candidato da Chapa Alternativa.

– “Ingerência aos assuntos internos da FACOM, não me parece viável.” me disse ele.

Cada um no seu quadrado, pensei. Não me dei por vencido. Insisti, argumentado da importância do quarto poder e da universalidade dos valores republicanos:

– “Mesmo que não votamos na FACOM, somos cidadão, livre de opinar e apoiar candidatos que nos animam.”

Meu amigo me disse então:

– “Mas justamente na FACOM? Não é nesta unidade que houve aquele caso de discriminação 5 anos atras? Fiquei chocado naquela época, com os “gritos” solitários de denuncia deste professor, na nossa lista internet, gritos sempre respondidos pelo echo silencioso dos seus pares da FACOM. Até me queimei ao defender este professor isolado, perto aos meus colegas, sem sequer conhecê-lo, mas por princípio. Pois o silêncio dos outros falava mais alto do que qualquer defesa!”

– “Pois então” eu disse ao meu amigo, “é este mesmo professor, Fernando Conceição, ontem vítima de uma caso de violência institucional explicita e escandalosa, que é candidato hoje! E com André Setaro como vice, viu!”

– “Ah! Mas neste caso é diferente. Apoio e com prazer.” respondeu ele…

Ao chegar em casa, me lembrei desta conversa e fui vasculhar os meus emails da época.  Pois, no meio do silêncio faconiano, houve um professor sim, já substituto deste mesmo Instituto de Matemática, que houve a ousadia de quebrar o silêncio, publicando na lista debate desta digna Universidade uma resposta às mensagens silenciadas de Fernando.

Eis ela, na integra, tal que escrita no dia 7 de julho de 2007 e publicada no dia 12 de agosto de 2007 na lista debates-l

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Contextualização

No dia 6 de julho 2007, tive a oportunidade de testemunhar um dos casos mais explícitos de violência institucional da minha vida.

A violência institucional, por ser quase sempre indiretamente exercida, é bastante difícil de exemplificar. Mas, no caso da reunião extraordinária da congregação da FACOM, tivemos um exemplo característico de tal fenômeno, sob a forma da reunião de um conjunto de professores, para julgar os atos de um dos seus pares. A violência se deu pela união de todos os membros da congregação ali convocados contra o “acusado”. Este, ao contrário dos direitos elementares instituídos pela república, não teve nenhum defensor. Apesar de existir vários membros da FACOM que poderiam ter apresentado opiniões divergentes do conjunto unânime daqueles presentes, o “acusado” não teve a sorte que eles fossem autorizados a falar. Portanto, esta reunião de mais de duas horas se transformou numa longa defesa desesperada do “réu”. Por incrível que pareça, o “réu” era também o único professor negro presente na sala.
Ao sair da reunião, chorando, o “réu” deixou-me com um gosto de tristeza profunda e de revolta impotente. Decidi portanto, escrever uma carta aberta. Esperei até agora, a minha admissão na lista de debates da UFBA para poder mandá-la. É isto que eu faço hoje, com mais de um mês de atraso.

CARTA ABERTA

Ao assistir a reunião da congregação da FACOM ontem, acredito ter entendido melhor a situação na qual se encontra o Prof. Fernando Conceição.
Depois de ter sido descartado da coordenação do PET, já faz quase um ano, apesar do seu currículo e do seu envolvimento na FACOM desde vários anos, Fernando se indignou. Ao invés de encontrar o apoio esperado da direção da FACOM, eleita numa coalizão com Fernando, quando este ainda era chefe do departamento no seu segundo mandato, o Prof. Giovandro Ferreira, diretor da Faculdade, se mostrou o maior obstáculo à pretensão de Fernando em obter a coordenação do PET.
Assim, ao invés de procurar ajudar um professor competente, dedicado e politicamente aliado, Giovandro preferiu procurar os conselhos da procuradoria jurídica da UFBA para garantir a vitória do processo que Fernando abriu na justiça. De fato, a UFBA obteve satisfação e Fernando foi derrotado.

Mais uma vez indignado, Fernando decidiu divulgar estes acontecimentos através do vinculo de impressa o mais adequado que ele tinha à sua disposição. O espaço de livre debate e de publicações de opiniões que ele mesmo criou: isto é, o Jornal da FACOM. Só que aí, Fernando se enganou. O JF não é um espaço de livre debate e opinião. Pelo menos, não para as opiniões dele.
Portanto, o Prof. Fernando Conceição está sendo agora acusado de abuso de bens públicos. Porque escrever uma tribuna no JF, quando o autor desta é o próprio coordenador da disciplina que administra a produção do Jornal, é crime…
Parece até que Jean-Marie Colombani, diretor do “Le Monde” durante muitos anos, nunca escreveu um “editorial” daquele Jornal. Mas é verdade que “Le Monde” não é nenhum jornal laboratório de uma universidade federal numa província brasileira.
Observa-se que o Prof. Giovandro Ferreira cometeu este mesmo crime de “abuso de bens públicos”, ao publicar uma réplica no JF do mês seguinte. Apesar de não ser coordenador da disciplina de produção do JF, ele assinou como diretor da FACOM…

Além deste crime, Fernando é acusado pelo seus pares de usar nos seus pronunciamento públicos de termos não adequados com o estilo acadêmico. E isso motivou a reunião extraordinária da congregação da FACOM. Neste assunto, devo confessar minha incapacidade em competir com os colegas “lettrés” de Fernando para avaliar o estilo das suas comunicações. No entanto, posso testemunhar que o estilo de Fernando, acadêmico ou não, incomoda e já incomodou muito no passado, por exemplo:

– Quando ele articulou o movimento dos favelados de Salvador, a mais de 20 anos atrás;
– Quando ele foi expulsou do PT porque apoiou a candidatura de um negro não petista na Bahia;
– Quando ele defendeu, quase sozinho, o ato do Maksoud Plazza do 20 de novembro 1993, no memorial da América Latina, em frente a todos os movimentos negros de São Paulo;
– Quando ele sofreu uma quase expulsão da USP por suas pichações não acadêmicas nos muros do campus universitário a favor das quotas;
– Quando ele defendeu a idéia de reparações financeiras aos descendentes de africanos em vários fóruns nacionais e internacionais,
– Quando ele publicou várias matérias criticas e de denúncia no falecido jornal “Província da Bahia”;
– Quando ele continuamente publica em jornais de circulações regionais e nacionais, artigos que se recusam a apresentar opiniões banais…

A lista é longa, e certamente, desconheço ou esqueci a maioria das ocasiões nas quais o estilo arrogante, militante, critico, ético, em breve o estilo de “citoyen engagé dans l’acceptation sartrienne du terme” provocou a ira dos sujeitos dos pronunciamentos públicos de Fernando.

De fato, Fernando não costuma mastigar as suas palavras para dizer o que ele pensa. Isto certamente é crime.
Por este crime, peço que ele seja premiado !

Fernando, espero que apesar de tudo, você continue corrosivo e engajado, e que talvez um dia, a “academia” consiga contemplar a qualidade única dos seus pronunciamentos públicos.

Salvador, dia 7 de julho 2007
Paul Regnier,
Professor-substituto e mestrando na UFBA

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Universidade Federal da Bahia – http://www.portal.ufba.br

$FACOM: Pesadelo para alguns, Sonhos de muitos! Porque não??

Os novos paradigmas da Luta pela igualdade e a distribuição mais justa dos bens públicos

Nos dias de hoje, Machiavel teria de concordar com Thucydide, o qual já dizia, há 25 séculos atrás: “O dinheiro é o nervo da guerra”, pois nada é mais justo quando aplicada às novas formas de “guerra” das democracias modernas. Entendes-se aqui, as lutas sociais, societais e políticas travadas pelos partidos e organizações da sociedade civil. De fato, dificilmente se luta de barriga vazia. Mas não é bem disso do que se trata aqui. No contexto das convergências tecno-científicas, da globalização da produção e da mercantilização dos bens materiais e imateriais, este provérbio ganhou uma nova dimensão impensada por muitos até então.

Para levar nosso leitor à intuição desta nova faceta desta frase tão antiga, vamos considerar três movimentos sociais recentes: o Movimento dos Favelados, o Movimento pelas Reparações e o Movimento Pró-Quotas. O laço invisível que reúne estes movimentos, e muitos outros, são as dinâmicas inovadoras e eficientes, inspiradas pelo “nervo da guerra”, que foram usadas para quebrar o “silêncio” das mídias.

Pois bem, a força da democracia republicana reside no equilíbrio dos três poderes: judiciário, legislativo e executivo. Porém, o quarto poder, a mídia, sofre uma tutela direta e sem vergonha por parte de algumas poucas empresas e famílias, servindo deste jeito aos interesses de uma das organizações politico-sociais a mais desigual do mundo. De fato, o papel da mídia não é pouco na manutenção do status-quo brasileiro, fazendo da violência, das drogas ilegais, do futebol e das religiões seus maiores aparatos, esquecendo, com muita insistência, seu papel essencial de controle eficiente e transparente das politicas públicas e dos seus articuladores, os movimentos sociais e os representantes eleitos do povo.

Em frente às impossibilidades de se romper o muro de silêncio e conseguir espaços e visibilidade no cenário nacional, movimentos, organizações, instituições e partidos multiplicam suas estratégias e formas de ações. Os mais desesperados fazem greve de fome enquanto os mais empoderados organizam mega-eventos e compram espaços nos veículos de comunicação para acenar suas mensagens às massas.

Ou seja, para se lutar, precisa de dinheiro. Isto, Thucydide já dizia. A novidade aqui é que se pode lutar com dinheiro virtual! E eis aqui o traço de união entre os nosso exemplos: reparações, quotas e favelas. Se não se tem o dinheiro na mão, pode-se futucar onde não se deve: na carteira dos que tem. Esta é a contribuição valiosa que Fernando Conceição (FC) trouxe para estes três movimentos e que permitiu a deflagração nas mídias nacionais brasileiras, omissas e silenciadas, de várias grandes ideias contemporâneas.

Assim se deu a denuncia pelo Movimento dos Favelados, cujo FC era uma das lideranças mais ativa, contra as especulações imobiliárias e falcatruas que levaram Mário Kertész a arrombar os cofres da prefeitura de Salvador. US$ 200 milhões mediaticamente denunciados, porém realmente roubados! Salvou-nos do ladrão se tornar governador.

Assim se deu a pendura no Maksoud Plaza de São Paulo no dia 19 de novembro de 2013, graças a qual 12 integrantes do Núcleo de Consciência Negra, liderado por FC, semearam a ideia das Reparações aos descentes de Africanos na mídia nacional. US$ 2000 virtuais, de comes e bebes, cujo o consumo pendurado, revelou o seguinte a nação brasileira: cada negro no Brasil tem direito de receber US$ 102 mil!

Assim se deu o debate sobre as cotas para afro-descendentes nas universidades, única medida prática capaz de derrubar um dos esquemas legais mais eficientes do mundo para a manutenção das desigualdades sociais. Fala-se da sinergia entre vestibulares dificilíssimos, cursinhos e escolas particulares caríssimos e escolas públicas em decadência. Queimas de pneus, sacrífices rituais na porta da reitoria da USP, protesto nu, pichação… Se não fosse o ilustre Milton Santos para lhe defender na USP, o então doutorando FC teria sido mera e simplesmente expulso desta instituição e não seria doutor hoje, nem tampouco candidato a direção da FACOM da UFBA.

Pois é. FC sempre soube que o nervo da guerra é a grana. Talvez porque sempre anda duro. Pois, que seja no Calabar, favela cunhada no meio dos bairros mais nobre de Salvador, na Flor do Engenho ou no Alto Ondina, FC nunca se nega a pagar a saideira. Mesmo que tenha que ir para casa andando depois! “Ter ou não ter? E se temos, porque não gastar?”

Recentemente, a ONG “Afirme-Se” ganhou um patrocínio de $R 500 mil da Petrobras para realizar a biografia de Milton Santos e mais de US$ 200 mil da Fundação Ford de apoio para pesquisar o tratamento de Negros, Índios e Ciganos pela mídia impressa brasileira. Dois projetos que FC concretizou. E ele? Continua na mesma simples arrogância contraditória, se dando ao luxo de comprar -em consórcio, pois banco emprestam à funcionários públicos- um carro zero -chinês, pois é mais barato- e publicando de forma transparente as contas dos seus vários projetos.

Desta relação desprendida com a grana, FC tirou sua estratégia moderna de luta e seu uso sempre renovado do maior símbolo mediático da época, o “US$” como a ponta mais afiada das suas facadas midiáticas. A mídia precisa de escândalo e sensacionalismo. Que seja! Vamos denunciar os US$ 200 milhões de rombo na prefeitura! Revelar os US$ 6 trilhões e tantos milhões (só ele lembra destes números) de reparações devidas ao povo negro no Brasil; exigir 50% de vagas nas Universidades Federais para negros!

Eis o nervo da guerra midiática. Eis a inteligência do nosso Zumbi dos Tempos Pós-Moderna. Sempre mexer no que mais doí. Na carteira, cheia de dólares, assim como nos privilégios da elite brasileira. Pelo menos, no discurso, pois numa democracia que garante o livre direito de expressão, o nosso grito solitário precisa quebrar o muro do silêncio que cala as maiorias. E para isso, usar-se da própria arma do mercado, o “US$”, permitiu a emergência, na raça, de ideias novas e radicais numa sociedade em mal de utopia.

Mas será que temos força e coragem hoje para enxergar os nossos heróis, de preferência antes deles morrer? E eleger Fernando Conceição, bem vivo, ao cargo de diretor da Faculdade de Comunicação? E amanhã, ao de Reitor da UFBA?

Brazil, cotas e chorumelas: breve histórico

Isto é História!
Embora defender as conquistas das nossas lutas.

fernandoconceicao

A edição da semana passada (27/04 a 3 de maio 2013) da mais influente revista de informação semanal do planeta, The Economist, trouxe na capa, no principal editorial, em três matérias (4 páginas) e em uma resenha crítica de mais meia página, sua declaração de guerra pela extinção das políticas de ação afirmativa. Recebo o exemplar impresso em casa, toda terça ou quarta seguinte.

“Cotistas têm pior resultado entre universitários” foi, por sua vez, a manchete da Folha de S. Paulo no domingo, 28/04, em que aquela The Economist circulava. O texto da revista inglesa é doutrinário, na linha, digamos, de Adam Smith. A reportagem da Folha é panfletária.

A pesquisa de Márcia de Carvalho e Fábio Waltenberg (Universidade Federal Fluminense), tomada como fonte para a matéria, não conclui pelo viés do matutino paulista. Como já sugerido por outrem, a manchete do jornal poderia ser “Cotistas superam não-cotistas em…

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