Arquivo mensal: abril 2014

“O meu filho não merece isso…”

“… e, se meu filho não merece, também não merecem os estudantes da UFBa morar nas imediações do Calabar e do Alto das Pombas. Merecem morar em bairros nobres, bem localizados. Por isso me orgulho em ter vetado a construção de uma residência universitária no campus de São Lazaro, pois a localização escolhida não prestava!”. Esta foi parte da resposta do candidato a reitoria João Carlos Salles a minha pergunta quando visitou o Instituto de Matemática da UFBa*.

Pois bem. A avenida Garibaldi, o Campo Grande ou o Canela devem ser uns desses bairros nobres, mais seguros, certamente. Assim como comprovam os tristes assassinatos de alunos e professores neste lugares nos meses passados. Será que o candidato a reitor esqueceu que assaltos acontecem com maior frequência onde há mais din-din! Sendo portanto mais seguro morar no morro de São Lazaro, ao exemplo de uma amiga belga minha, que na Pituba! Parece ele também ter esquecido que a cidade de Salvador é feita de contraste, assim como esta de Rio de Janeiro, com bairros populares, comumente chamados de favelas, apoiado nos morros, cercando bairros de classe média e alta, muitas nas alturas destes mesmos morros. E que nem por isso, deixamos, nôs burgueses de classe média e alta, de morar nestes prédios luxuriantes, a vista das favelas.

Ora, pergunta-se qual melhor lugar que São Lazaro para alojar estudantes de São Lazaro? E se meu filho, estudante na UFBa, fosse do Calabar, mereceria morar aonde?

Nesta hora do debate, o candidato, pelo qual eu estava por enquanto inclinado a torcer, perdeu me voto. Para me confortar nesta minha viravolta, o candidato da Filosofia ainda afirmou estar a favor da manutenção da consulta eleitoral paritária baseado nos inscritos invés dos votantes. Atualmente, a regra de cálculo é simples. Cada colégio (41.000 mil alunos, 3.600 funcionários e 2.400 professores) tem peso um terço. Esta paridade bastante democrática é uma conquista recentes dos movimentos estudantis. No entanto, na prática, ela sofre o seguinte defeito que acaba prejudicando fortemente a capacidade de expressão dos estudantes: um voto dentro de um colégio é dividido pelo total dos inscritos. Desta forma, o peso real de cada colégio depende altamente da mobilização dos eleitores deste colégio. Suspiro! Pois, sabe-se que a comunidade estudantil, por razões óbvias e simples, mal chega a mobilizar um terço dos seus membros. Enquanto professores e servidores técnico-administrativos, por serem obrigados a presencia no seu lugar de trabalho., tendem a votar massivamente.

Aqui mais uma vez, o candidato parece ter esquecido, o talvez rompido com seu passado de militante de esquerda em luta para o fortalecimento da democracia. Pois segundo João Carlos Salles, não se deve mudar a regra para instaurar o quociente dos votos de cada colégio pelo total de votos expressos. O problema é dos estudantes se não conseguem se mobilizar! Que eles resolvam!

Mas se só fosse esquecimento, até que poderia se perdoar. Mas trata-se aqui de outra questão. Esta da dicotomia entre princípios e poder. O que há de comum entre os professores Antônio Camara, Celso Castro, Mauricio Barreto, Jailson de Andrade, Paulo Miguez…? Algum ideal de universidade baseados em princípios políticos historicamente defendidos ou um mero projeto de poder? A construção coletiva apresentada pelo candidato João Carlos Salles impressiona. Conseguiu agregar tudo e seu contrário. Do mais fiel defensor do Reuni a famosos opositores as políticas de quotas. Da esquerda mais radical aos conservadores mais elitistas desta nossa universidade. E o que será que une estas forças? Princípios políticos fundamentais, coerência histórica e social, projeto claro, transparente e diferente de construção uma universidade de todos e para todos?

Não. Infelizmente, não da para acreditar nesta ilusão. A coalizão em volta da candidatura deste militante político de longa data reproduz quase que fielmente a situação macro-politica da Bahia. Albino Rubim, Alice Portugal, Emiliano José, Marielena Chaui, Nelson Pelegrino, Olivia Santana, … Estes são alguns dos apoios recebidos por João Carlos e mediatizado, no melhor estilo da politica do espetáculo denunciado por Guy Debord, por uma chuva perfeitamente orquestrada de clips no Youtube. Acaso da vida, estes membros da aliança governistas amarrada ao poder desde 8 anos que apoiam João Carlos estão em plena campanha eleitoral. E um reitor eleito por tal aliança ainda terá independência para produzir criticas ao governo do Estado?

Ou será que o Reitor da Universidade Federal da Bahia não deve opinar sobre politicas regionais, nacionais e mundias? João Carlos está construindo coletivamente sua chegada ao poder. Parabéns. Mas o poder para que? Para não poder pensar livremente e criticar abertamente os desfuncionamento do Estado de Direito brasileiro? Para não poder gritar, no lugar dos sem vozes e dos silenciados, que o governo do estado é corresponsável pelo aumento escandalosos dos homicídios na Bahia? Para não poder afirmar que o desrespeito as categorias dos policiais e professores do Estado leva a greves e mortes? Para não poder chorar, pois estes mortes são, na sua extensa maioria pobre, pretos e da periferia?

 

NdeAA “verdadeira posição” de João Carlos Salles acabou de ser publicado em https://www.facebook.com/groups/165870313483419/permalink/648869541850158/  Não me parece ser tão diferente assim com o que tentei sintetizar, de memória, no primeiro parágrafo do texto, talvez de forma jornalistica demais…

E ainda falta a transcrição da resposta que João Carlos Salles fez as minhas perguntas (e não a esta da professora Debora Abdallah, alguns minutos depois).

 

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