Servidor do Rei!

Depois de 10 dias em greve remunerada, estou ficando doente.
Doente de estar em luta e receber meu salário. Pois, na minha compreensão,
existe um paradoxe intrínseco a greve remunerada.
A greve é um instrumento justo, legítimo e legal contra a dominação do Rei

-o governo eleito pelo povo numa democracia- e dos notáveis.
Mas como posso estar em greve contra o Rei e ao mesmo tempo,
receber subsídios do Rei para a minha manutenção,
e consequentemente, para a manutenção da greve?

Greves remuneradas são férias forçadas para a maioria dos servidores.
Para poucos radicais, inclusive eu, greve ainda é um instrumento de luta.
Mas a remuneração da greve pelo Rei a torna inócua.

Um diretor de unidade amigo meu bem me disse.
“Com greves remuneradas, quero estar em greve a vida toda”.
Durante a greve, a pós-graduação, a pesquisa, a extensão não param,
nem as viagens à Chapada, em Imbassaí ou ao exterior.
Também não param as tardes no Shopping Salvador…

De fato, por que ensinar? Por que corrigir provas? É tão bom estar em greve remunerada.

E por que são remuneradas, estas greves dos servidores públicos, no Brasil?
Por que é isto que se faz no Mundo? Não.
Pois o Brasil é um dos únicos países no qual funcionários têm este privilégio.
Para só citar o meu país de origem, tão citados por pesquisadores da academia brasileira,
o governo francês não dá este privilégio aos seus servidores. Receber sem trabalhar.
Nem o Reino Unido, nem os Estados-Unidos. Mas era de se esperar de democracias velhas e tão opressoras dos trabalhadores.

O Brasil então é exemplar. Permite que o servidor público receba sem trabalhar.

Basta estar em “greve legal”! Infelizmente, não. Isto não é bem um direito conquistado pelos trabalhadores de alta luta.

Inclusive, trabalhadores não funcionários não recebem salários durante suas greves.
Fazem o que todo qualquer grevista está acostumando a fazer.
Fundos de solidariedade, atraso nos seus pagamentos e no fim da greve, -quando já não foram demitidos- negociam com os patrões, a pauta da greve e a reposição salarial.

E nós servidores, o que fazemos no fim da greve?
Nada. Voltamos a trabalhar. Professores, às vezes, repõem aulas. Menos mal.

Por isso e aquilo, tenho vergonha de estar em greve.
E prometo, farei o mesmo encaminhamento em todas as assembleias.
“Solicitamos que o Rei corte os nossos salários desde o primeiro dia da greve!”
Ao fim da greve, que certamente acontecerá com mais rapidez desde que este encaminhamento seja aprovado, negociaremos reposições de salários, de aulas, de pesquisas, de extensões, por mais que seja preciso.

Só assim poderei me sentir feliz de estar em greve.
Adquirindo a convicção que não sou o palhaço de uma minoria de extremistas e de uma maioria de omissos.
Sabendo que não sou mais um servidor feliz de gozar dos seus privilégios, não dados pelo povo, mas sim pelo Rei.

Pois é privilégio “receber sem trabalhar”.
Privilégio digno dos cargos de notáveis distribuídos alguns anos atrás pelo Imperador do Brasil.
Vamos enxergar, meu povo, nossos privilégios por mais que isto doa no bolso!

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7 pensamentos sobre “Servidor do Rei!

  1. Na universidade entre os estudantes é bastante comum nos referirmos a respeito da greve dos servidores como algo que já faz parte do calendário acadêmico. Questionei certa vez, que ao menos eles deveriam estar nos seus postos de trabalho, mesmo que não estivessem exercendo as suas atividades, pois dizer que está em greve enquanto passa as tardes no Salvador Shoppping é fácil.
    Vejamos os rodoviários quando entram em greve, vão para as garagens das empresas, porém não colocam os veículos para circular ao invés de ficarem em casa de pernas cruzadas esperando a greve passar.
    Belo texto Paul!

  2. Jorge disse:

    Me pergunto do que adianta parar uma universidade no fim do semestre? Quem serão os verdadeiros prejudicados? Do que adianta ficar dentro da universidade estendendo faixas e fechando prédios para impedir que outros docentes não continuem executando suas tarefas? Fico sempre na cabeça um questão: já que estamos reclamando por cortes no orçamento da educação no âmbito federal, porque não marchamos para onde está sendo votado esses cortes? Porque não paralisamos o congresso? Será que os grevistas teriam a mesma disposição?

  3. Dora disse:

    OLá amig@s,
    Que tempos esses não é?
    Valioso convite para uma reflexão sobre a ética nos nossos atos e quem sabe, para o exercício da coerência entre o falar e o agir…mas para isso é preciso um certo esforço, não é fácil … e mesmo que por alguns mínimos segundos, emergir do convencional que nos inunda e levar em consideração uma contra lógica que questione a normalidade programada para seres forjados e padronizados, na condição de ganhadores sempre…
    Nesse caso chama a atenção na sua proposta as possibilidades que se abrem para outros tipos de ganhos…bens duráveis, não descartáveis…
    Pois é, também faço parte de um grupo que acredita, que precisamos de uma forma vital preservar valores, sob pena de perdermos a essência do que acreditamos.
    Vale lembrar que não tratamos aqui das necessidades que são essenciais … dos compromissos…reflito aqui sobre maturidade, sobre assumir consequências e fortalecimento através da defesa do que se considera certo e de direito!!!! nesses casos uma chamada com essa é de uma pertinência!!!! Precisamos disso!

    Não sei porque essa conversa me levou a lembrar um fato que tomei conhecimento, há um temo e que me intrigou bastante. Acessei na net e deixo aqui…

    http://textos_legais.sites.uol.com.br/desconvite.htm

    DESCONVITE
    Depois de convidado para ser patrono dos formandos dos Cursos de Administração, Jornalismo e Turismo 2005-2 da Universidade Estácio de Sá de Santa Catarina, o Professor Rubens de Oliveira recebeu uma mensagem eletrônica desconvidando-o, de forma cortês, pelo fato dele ter contribuído com pequena quantia de dinheiro para as festividades.
    Em resposta, o desconvidado aceita o desconvite e desanca os convidantes.
    Como é atual essa história de paraninfo e dinheiro, de forma expressa ou implícita, vale a pena ler a troca de correspondências entre os estudantes e o mestre desconvidado
    E-MAIL DA COMISSÃO DE FORMATURA:
    Excelentíssimo Dr. Professor Rubens Araújo de Oliveira
    Assunto: Desconvite Patrono Estácio Data: 02/12/2005
    Nós da comissão de formatura 2005/2 dos cursos de Administração, Turismo, Jornalismo e GSI da faculdade Estácio de Sá de Santa Catarina, vimos por intermédio desta, comunicá-lo de uma situação que nos deixa muito constrangidos e de certo modo frustrados: Há alguns meses, em visita pessoal entre os membros da comissão de formatura a Vossa Senhoria, solicitamos e fomos prontamente atendidos e correspondidos na solicitação do convite, que muito nos honraria para homenageá-lo como Patrono das turmas acima mencionadas.
    Até então, também foi abordado a possibilidade de um auxílio para amenizar os custos referentes à formatura.
    Hoje pela manhã, fomos informados formalmente que o auxílio que poderia ser repassado aos formandos seria de R$ 1.000,00, que entendemos que esteja dentro das suas atuais possibilidades financeiras.
    Ao repassar esta informação, a comissão e os demais formandos ficaram em uma situação delicada em face da dificuldade em completar o orçamento.
    Os mesmos reagiram e sugeriram o auxílio de outra pessoa, que era também cogitado a ser homenageado, cujo valor disponibilizado amortizará o custo relativo ao local da colação de grau, pois contávamos com a disponibilidade do novo auditório da Estácio. Então, diante desta situação extremamente complicada, nós, da comissão, acatamos o que a maioria dos formandos optou, que é de homenagear como Patrono a outra pessoa que fará uma contribuição mais elevada.
    Gostaríamos de agradecer o aceite e o comprometimento, nos desculpar pela alteração e pelo não cumprimento do convite que fora gentilmente aceito pelo senhor, mas diante dos fatos, a maioria decidiu que seria mais justo homenagear a pessoa que se propôs a fazer a maior contribuição para com os formandos.
    Ficamos no aguardo de um retorno do recebimento deste.
    Atenciosamente,
    Comissão de formatura 2005/2

    RESPOSTA DO PROFESSOR:
    Prezados Acadêmicos da Comissão de Formatura dos Cursos de Administração, Jornalismo e Turismo 2005-2,
    Vocês não devem se sentir constrangidos. Frustrados, sim; constrangidos, nunca! Quem sabe este constrangimento não se trata de vergonha! Ou falta de caráter! Ou ainda falta de ética! Entendo que estou “desconvidado” para ser Patrono. Em minha vida de quase 30 anos como professor, devo ter sido patrono, paraninfo, nome de turma e homenageado – dezenas de vezes. Jamais imaginei que formandos convidassem e “desconvidassem” patronos por dinheiro! Enfim, sempre há uma primeira vez para tudo. Se eu utilizasse a mesma moeda (literalmente) é uma pena não ter sido comunicado antes… Neste caso, por idêntico critério não teria pagado minha parte como “patrono” na última festinha de confraternização dos formandos.
    Meus queridos ex-futuros afilhados: Eu é que me sinto constrangido. Decepcionado. Surpreso. Triste, mesmo! Constrangido porque pensei que o convite realizado fosse uma homenagem ao Ex-Diretor Geral da Estácio pela sua capacidade de administrar e levar adiante um projeto que em cinco anos tornou-se a maior escola de administração de SC.
    Todos os cursos que ora estão se formandos obtiveram a nota máxima de avaliação do MEC. Patrono é isso: uma pessoa que os formandos entendam deva ser exemplo na área de atuação dos cursos.
    Decepcionado porque pensei que nossos alunos honrassem o título de Bacharel após quatro anos muita de luta e sacrifício. Patrono é isso: uma pessoa que dignifica a profissão. Surpreso porque jamais imaginei ter sido “comprado” como Patrono. Isto é, fui “eleito“ pelos formandos somente porque iria dar dinheiro para a formatura. Patrono não é isso. Patrono não se vende.
    Triste porque vejo que não consegui – após quatro anos de curso superior – mudar os valores de alguns alunos da Estácio SC. Patrono é isso: uma pessoa que possui valores que prezam pela ética, moral, honra e palavra.
    Sinto-me aliviado. Dormirei melhor…
    Não consegui comprá-los por R$ 1.000,00. Obviamente a honraria de ser patrono vale muito mais que isso. Tivesse eu as qualidades de um patrono acima citadas – talvez me sentisse “enojado” com a situação. Como não as possuo, sinto-me aliviado em ter poupado um dinheirinho que seria gasto com pessoas das quais me envergonho ter sentido alguma consideração de relacionamento.
    Assim sendo, e como não resta alternativa, com muita alegria, aceito o “desconvite”.
    Entendo que outros formandos não devem compartilhar da mesma opinião dessa Comissão. A estes desejo sucesso e sorte.
    À Comissão de Formatura e aos outros que trocaram o patrono por dinheiro o meu desprezo. Seguramente a vida lhes ensinará o que a faculdade não conseguiu!
    Por último, desejo a todos a felicidade da escolha de um Patrono bem rico! Que ele possa pagar todas as despesas e contas… Seguramente a maior qualidade do homenageado!
    Que tenham uma excelente formatura. Estarei lá, presente, na qualidade de professor da Estácio. Digam ao acadêmico orador que, em seu discurso, não fale em qualidades dignas do ser humano, muito menos em decência, honra, moral e ética. Se assim o fizer, irei aparteá-lo e chamá-lo de mentiroso!
    Atenciosamente,
    Prof. RUBENS OLIVEIRA, Dr. Ex-futuro Patrono dos Cursos de Administração, Jornalismo e Turismo da Estácio de SC.

  4. Edson disse:

    Paul me parece que você e o diretor amigo que le disse “Com greves remuneradas, quero estar em greve a vida toda” estão enganados, pois para um certo grupo de professores que fazem parte do comando local de greve (clg) o trabalho mais que se duplica, pois de manhã são as reuniões do clg para organizar as moblizaões e executar as deliberações de assambleia de tarde as moblizações, piora ainda se por acaso se é escolhido para ser representante em Brasilia, pois ahí são dias intensos de trabalho e longe da familia. Assim afirmar que são férias forçadas para todos não é verdade.
    Por outro lado não é o trabalhador quem tem que solicitar que cortem o salário, é o empregador e no caso das IFES isto pode ocorrer veja na greve de 2001 http://www1.folha.uol.com.br/folha/educacao/ult305u7208.shtml onde o salário de outubro foi retido. Assim nosso salário pode ser retido a qualuer momento é o risco. Eu particulamente detesto a greve pois estou participando da moblização e tenho que participar das assembleias e meu filho não esta de férias, cuando ele estiver de férias eu estarei trabalhando repondo as aulas. Francamente não sei de onde você tirou isso de que os professores viajam para Imbassay, Chapada etc nem dinheiro tenho para fazer isto menos neste momento que meu filho não esta de férias

    • paulregnier disse:

      Edson, perceba. Não tenho nada contra a greve, pelo contrário. Votei e voto a favor. E tenho total respeito por pelo comando de greve e aqueles que surfam sobre a onda para ajudar a luta e crescer juntos. No entanto, não vejo graça em lutar contra a política do governo e receber deste mesmo. Muita contradição para o meu gosto!
      Sabemos que poucos estão mobilizado, No ato da ultima sexta-feira, tínhamos quantos professores? Menos de 100!
      E os demais, aonde estavam? Te ajudando para evitar que tenha o dobro de trabalho? Ou, como eu, cuidando de um deadline administrativo imprescindível e “autorizado” pelo comité de ética da greve?
      Me desculpe por duvidar e acreditar que a grande maioria dos servidores públicos em greve sexta-feira estava em casa, ou alhures, cuidando dos seus afazeres privados e curtindo suas férias “forçadas”.
      Me desculpe ainda por acreditar que a grande maioria da população enxerga a nossa greve como férias coletivas…

  5. Renato disse:

    Raciocínio falho.

    Não se trata de greve não dever ser remunerada.
    Trata-se de greve ser uma reação a uma situação abusiva, criada pelo empregador.

    O empregado em greve tolerou prejuízo enquanto pôde…e quando o diálogo se mostrou inútil apelou para a greve.

    Ser FORÇADO a fazer greve para exigir seus direitos e ter os dias de greve cortados é ridículo.

    Mas faz parte da educação dada ao brasileiro culpar a vítima…

  6. Roland Paiva disse:

    Tem diversas maneiras de olhar essa questão: olhar de frente , por trás, do lado direito , do lado esquerdo. Olhar só de um lado é ver de forma minuscula a questão, portanto a questão levantada por Paul é válidae e deve ser levado em consideração. Não poderemos achar que foi proposto pelas lideranças está adequada, acho obtusa. VAMOS REFLETIR MAIS A POSIÇÃO TOMADA NA UFBA.

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