Arquivo mensal: julho 2015

III Marcha Internacional Contra o Genocídio do Povo Negro – Comunicado Nacional e Internacional

Das Lutas

11695027_1007225722633878_5028079848912363182_n

III Marcha Internacional Contra o Genocídio do Povo Negro

Comunicado Nacional e Internacional

Em agosto de 2015 teremos a III Marcha Internacional Contra o Genocídio do Povo Negro. A Marcha Internacional Contra o Genocídio do Povo Negro não é uma ação que começa e se encerra num evento, numa data predeterminada. Trata-se de um conjunto de ações permanentes e articuladas que ocorrem o ano inteiro, através de enfrentamentos, debates, ações, articulações, serviços comunitários e construção de espaços de solidariedade em vilas, favelas e prisão.

A Marcha Contra o Genocídio do Povo Negro organizada pela Campanha Reaja desde sua primeira edição e cujo processo de construção e organização, há dez anos, é uma marcha autônoma em relação a governos e partidos, não aceita em suas fileiras bandeiras, panfletagem ou propaganda que não seja compatível com a construção de uma organização internacional de luta Panafricanista, Quilombista, Negro-Comunitária.

Nossa Marcha não é Periférica…

Ver o post original 1.593 mais palavras

Anúncios

Esta causa não é minha?

Em dezembro de 2014, caminhando pelo bairro dos Barris, um “amigo”, muito íntimo por sinal, me perguntou: “Espero que a França seja melhor do que aqui!”. Fiquei constrangido e curioso em saber de qual “melhor” se tratava. Após algumas tentativas minhas de adivinhação, este meu “amigo” me revelou seu pensamento: “Espero que na França tenha menos pobres do que aqui…”. “Olhe, não é bem simples assim” respondi.

No início deste mês de julho de 2015, fui a Porto Alegre participar de um evento cientifico da minha área de atuação profissional, o Fórum Internacional de Software Livre FISL-2015. Ao trilhar os passeios da PUC-RS e cruzar pelas avenidas do centro da cidade, lembrei da pergunta do meu “amigo” e pensei em mim mesmo: “Onde estão os pobres do Rio Grande do Sul? Pois aqui me parece que estou na Europa, ou numa das suas réplicas sul-americanas!”

mendingo

Uma bela praça de Porto Alegre

De fato, naquela capital deste estado, vi mendigos nas ruas, sofrendo do frio em abrigos precários. Também soube de uma bairro na periferia, distante de 16km do centro. Restinga. Me disseram que neste bairros e outras periferias, a população é mais pobre, para não dizer negra. Mas, no centro da cidade, me senti como no centro de Paris, minha cidade natal. Centro cosmopolita, cheio de uma diversidade étnica no meio de uma maioria branca. E com uns poucos pobres nas beiradas dos passeios e de baixo de pontes. Curti muitas superfícies de concreto embelezadas por artes urbanas das mais variadas. Usufrui de um sistema de transporte decente e eficiente, apesar de caro. Dava tranquilo para fingir ser mais um brasileiro no meio de tantos outros. Em fim, me senti parisiense…

Nunca tive a coragem de ir para alguns dos países francofones da África do Oeste (Mauritânia, Senegal, Mali ou Guiné) onde tudo me levava. Dança, Cultura, Amizades… Nem para visitar, muito menos para viver. Pois sempre pensei que no espaços urbanos destes países, nunca teria como deixar de ser um “gringo”, francês, herdeiro de uma família burguês e cidadão de uma estado colonial até hoje, co-responsável por explorações, guerras e genocídios no continente Africano e no Mundo. Por isso, nunca consegui comprar uma passagem de avião para Dakar, Bamako ou qualquer outra capital desta região do Mandingo. E não é por falta de interesse pelas culturas e tradições destas regiões. Pois, danças, músicas e tradições oral do Mandingo me acompanham e me fortalecem desde minha prima adolescência. É que eu sabia que a cicatriz colonial escravocrata nunca me permitiria o “anonimato” nas ruas de Ziguinchor ou de Mopti, Nunca poderia andar nos espaços públicos, me sentindo um cidadão qualquer no meio de outros.

Por estes e outros motivos, arrisquei vir morar em Salvador-BA, há mais de uma década já. E realmente, andando pelas ruas de Salvador, consigo me iludir. Acreditar que não sou mais aquele “gringo”. Apesar de saber que estou continua e positivamente discriminado, principalmente pela PM e as elites que dominam esta cidade. Sou agradecido, todos os dias, pelo acolhimento que recebi e recebo no Brasil, tanto na academia quanto nas favelas. Sou muito bem tratado. Demais.

Obvio que em alguns lugares, nos quais acabo andando por um misto de amizade, teimosia, arrogância inconsciente, sei que minha branquitude me torna alvo de interesses financeiros. Que posso sim ser “assaltado”. Que seja. Isto é o preço a pagar por ter escolhido morar no Brasil. Inclusive, eu também andava em lugares considerados “perigosos” na França. Mas não foi em nenhuma “cité” nem favela, mas sim dentro do campus da USP em 1993, que sofri a agressão a mão armada a mais violente e perigosa da minha vida, por parte de policias a paisana! Provavelmente porque naquele dia, andávamos discutindo com minha namorada, negra.

Voltando a este meu amigo e aos mendigos daqui e dali. Horas depois daquela pergunta, ele voltou a me procurar sobre este assunto e eu disse: “os povos economicamente pobres da França nem todos estão na França. Na sua grande maioria, estão no Vietnã (ex-Indochina), em Madagascar, na Argélia, no Senegal, no Mali, na Guiné, etc.” Isto se chama globalização e histerese da história causada pela ausência de políticas mundiais de Reparação.

prodColon

Quem disse que o Brasil “colonia! acabou?

Concluindo.

Esta minha visita à Porto alegre me fez perceber com mais acurácia que as regiões ao sul do triângulo SP-Rio-Brasilia são para as regiões nortes do Brasil e as grandes favelas das periferias urbanas o que a África é para a Europa: o lugar de cerceamento das tradições populares e das populações mais pobres e descriminadas da nossa época. Parece milagre que, apesar do genocídio continuo do povo negro pelos braços armados do Estado desde mais de quatro centos anos, seja destas comunidades, famílias e povos que possa se fortalecer e se espalhar um modelo alternativo de organização da sociedade mais justo, solidário e respeitoso das vidas humanas e das diversidades culturais.

Sim, esta causa é minha.

Reaja!

reajaBanner-page001

Convergindo Tod@s para Salvador, 22 de agosto de 2015