Arquivo mensal: novembro 2016

Mãe Runho

No café da Consciência Negra do terreiro Jeje do Bogum, domingo passado 20 de novembro de 2016, no Engenho Velho da Federação, depois do lindo recital solo de Matheus Aleluia, fui pego de surpresa ao ser chamado para receber o certificado Mãe Runho, entregue por Alex, ogã suspenso.

certificadomaerunhoMuito honrado, fiquei.

 

Salve Exu Lebabimibome! Diabo ou Deus?

Salve Hildebrando Almeiada Cerqueira. Salve Maria Doralice Sousa, alias Dona Dora. Salve todos os ancestrais.

Talvez não por acaso, a tese de doutorado de Hidebrando Almeida Cerqueira, aprovado com a  menção “très honorable” pela Universidade Paris Descartes (Paris V) ainda não está disponível na página  ad-hoc.  Disse o autor que já estará em breve. Tomara. Tomara também que a tradução venha logo para o português, pois o seu conteúdo merece certamente a maior divulgação. Ainda não li. Mas escutei o autor, ontem, e me deliciei ao aprender tantas coisas, ao ritmo de uma voz tranquila e humilde.

hildebrandodvenetta

Merece o salão nobre de qualquer Universidade. Merece ser estudada nas quebradas. Merece ser divulgada nos presídios. Merece ser publicada pela ONU e espalhada pelas encruzilhadas daqui e alhures.

A desconstrução do colonialismo, a conscientização dos indivíduos sobre suas próprias limitações, a valorização do respeito mútuo (e não da tolerância), a nossa emancipação individual e coletiva da nossa própria cultura. Parecem metas utópicas!

Descolonizar nossas mentes, herdeiras de culturas milenares dominadoras, esta é uma tarefa árdua. Venho tentando há muitos anos me emancipar da minha cultura europeia racista, sexista e dominadora. Perceber que meu corpo quase nunca é rejeitado. Não é fácil. Peço desculpas sinceras pela minha arrogância. Sou branco. E apesar de considerar a empatia como uma das qualidades mais valiosa de um ser humano, não pretendo ter conseguido me emancipar de milenares de ancestralidade judeo-cristão. Apenas tento. Sempre.

Obrigado Espaço Cultural D’Venetta! Por existir e nós proporcionar um pouco deste respeito que precisamos tanto resgatar. Obrigado por nós proporcionar mais um tempo de humanidade, de humildade, no meio deste “maelström” tecnológico acelerado no qual vivemos.

Exu Lebabimibome.

O mensageiro. Adotado pelos europeus como divindade africana mais aparentada ao diabo. Tem mais a ver com o Cristo, ou com o Macaco. Vive nas encruzilhadas. Causa transformações, guerras e pazes, ao criticar a ordem estabelecida.

Metáfora (tal como me imprimiu quando contada)- Dois homens olhem um terceiro passar. Depois de longe, o primeiro comenta:  “Que chapéu vermelho lindo!”. O segunda protesta: “Aquele homem? Tinha chapéu vermelho? Que nada. O chapéu era branco, e lindo, de fato.” O primeiro retruca, já esquentando: “Você ficou maluco? Aquele chapéu era vermelho. Boto a minha no fogo!” O segundo gritando: “Quem tá doido é você! Branco neve, aquele chapéu!”. Depois de um tempo, os dois já estão próximo de se matar um outro quando decidem ir atrás daquele homem. Encontrado, ele vire a cabeça de um lado: chapéu branco. Vira do outro lado: chapéu vermelho. Os dois homens se olhem, e se abraçam…

Três anos atrás, um homem, conhecido como incarnação de Exu na Bahia, me apresentou a Campanha Reaja. Espero que este homem pare de ser crucificado. Pois a fala de um menino, criado na favela, hoje jornalista, professor e “doutor”, incomoda. A crítica perturba e destabiliza a Acadêmia, simplesmente dominada pelo eurocentrismo desde que se criou. Hildebrando bem nós lembrou. “Divide et impera” era um dos princípios políticos de “Julius Caesar”. Não foi por nada. O colonizador/conquistador/dominador tem este poder de escolher, não somente a vida ou a morte dos (neo-) escravizados, mas também suas sexualidades, suas religiões,  seus lazeres, suas drogas. Tolerar tais práticas culturais e (tentar) acabar com outras. Salve a Capoeira. Angola e Regional. Por mais que sejam contraditórias.

Salve Andreia Beatriz dos Santos. Salve Hamilton Borges Onirê e todos os membros da Reaja, vivos e mortos. Salve Exu. Salve Ainá, Omin e Vitória. Salve Ademir. Salve todos.

Salve todos que lutam, muitas vezes ao perigo de suas vidas, em pró das diversidades culturais, da emancipação e do respeito a vida, e contra a colonização das nossas mentes pela civilização imperialista, capitalista, euro e tecno-centrada. Agradeço pela paciência. O império cientifico capitalista está omnipresente. E raros são aqueles que persistem em resistir.

E vejam. Nem a Reaja nem qualquer outra organização política ou cultural, resistindo contra a hegemonia capitalista da civilização judeo-cristão devem ser assuntos de tolerância! Pois não se trata de tolerar ninguém, de cima para baixo. Bem pelo contrário. Há quem escolhe tolerar, isso ou aquilo. John Locke bem introduziu a tolerância como uma política a ser exercitada pelo Rei (a república). Só se tolera o que se pode (tentar) aniilar. Não queremos Rei.

Respeito! De olho para o olho, de mentes abertas e solidárias entre povos e religiões.

Respeito! De igual para igual!

Respeito.

E, enquanto não tiver respeito, fecha a cara!

Finalizando, não posso esquecer de expressar os meus sinceros e respeitosos agradecimentos a comunidade docente do Instituto de Matemática da UFBA por ter protocolado recentemente ao CONSUNI uma propositura de homenagem de Andreia Beatriz de Santos, liderança da Organização Política Reaja. Segue texto de motivação encaminhado. Nestes tempos de cegueira política, qualquer ato de resistência se torna um ato singular de coragem.

“[…] It is from these comrades in the struggle that I learned the meaning of courage. Time and again, I have seen men and women risk and give their lives for an idea. I have seen men stand up to attacks and torture without breaking, showing a strength and resiliency that defies the imagination. I learned that courage was not the absence of fear, but the triumph over it. I felt fear myself more times than I can remember, but I hid it behind a mask of boldness. The brave man is not he who does not feel afraid, but he who conquers that fear. […]”

Nelson Mandela. Long Walk to Freedom, an autobiography, most of it written in jail.